sábado, 22 de fevereiro de 2014

"Não vejo limites para pacientes, vejo potencialidades", diz preparador de PCDS em entrevista ao portal Capital Teresina

No dia que disserem que vão colocar atletismo no Ceir, vou colocar eles para correr.

Por: Claryanna Alves


Childerico Robson é formado em Educação Física e pós-graduado em Atividade Física e Saúde pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Teve o seu primeiro contato com a atividade física para pessoas com deficiência ainda de forma particular e depois construiu sua vida profissional de competição paradesportiva no Centro Integrado de Reabilitação (Ceir). O profissional, que se emociona ao falar das conquistas de seus atletas, conseguiu levá-los para competições nacionais, nas quais ganharam várias medalhas para o Piauí em diversas categorias.

Capital Teresina: Quando foi o seu primeiro contato com a reabilitação a partir da educação física?

Childerico Robson: Meu primeiro contato com atividade física como profissional foi através de um cliente que eu tinha de personal. Ele teve um probleminha na família e me confiou à tarefa de treinar essa pessoa dentro da atividade física. Foi ele que me oportunizou esse primeiro contato profissionalmente, me confiou a tarefa de fazer atividade física com esse garoto e, graças a Deus, tivemos êxito durante esse tempo que ficamos juntos. Foi uma atividade bem prazerosa e que, pra mim, como educador físico e como nova área de trabalho, foi bem interessante já que depois daquele paciente vieram outros pacientes.

CT: Como foi encarar esse desafio profissional?

CR: Novos desafios, novas atividades, a busca pelo conhecimento e por um campo de trabalho até então pouco explorado dentro do Estado. Essa atividade ainda se resumia muito a instituições, não se tinha muito conhecimento de pessoas fazendo isso no âmbito particular. Quando se fala em deficiência, em reabilitação, se pensa em fisioterapia e, nesse momento, estamos incluindo no processo de reabilitação a questão da atividade física mesmo como busca de coordenação e todos os benefícios que a atividade física pode trazer.

CT: Porque resolveu desenvolver o seu trabalho no Ceir? E como tem sido essa experiência?

CR: Ao longo desse trabalho, que comecei a desenvolver há praticamente 15 anos atrás, tive contato com outros profissionais de outras áreas em ações multidisciplinar e, quando houve o processo seletivo para o Ceir, esses profissionais que trabalhavam comigo me alertaram. Num primeiro momento não era um desejo meu trabalhar aqui, apesar de já possuir uma agenda bem vasta de pacientes deficientes. Mas acabei fazendo a inscrição no último dia, na última hora e no último minuto; tanto que achei que minha inscrição nem iria ser efetivada. Para a minha surpresa fui aceito e pude concorrer no concurso. E passei! Passamos pelo treinamento na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Em 2006 passamos um mês conhecendo a dinâmica lá, um pouco da filosofia, um pouco da sistemática de trabalho dentro do processo de reabilitação de deficientes físicos na AACD.

Faço agora seis anos de atendimento no Ceir. De lá para cá tive muito crescimento profissional, além do crescimento pessoal. O trabalho da reabilitação está mais direcionado para ir atrás dessa emoção de estar interagindo com o paciente de forma a ter um companheiro, um amigo. Eu procuro trabalhar um pouco dessa forma. Não me apego muito a literatura. É uma coisa que tem que ter, mas acho que o algo a mais da reabilitação está dentro do peito, dentro do coração, é a vontade que você tem de lidar com o paciente, a vontade que você tem de mostrar pra ele a segurança e a certeza que ele vai conseguir fazer as coisas que estamos propondo. Não vejo limite para nenhum paciente. Não vejo as deficiências dos pacientes. Vejo só suas potencialidades. Deficiência todo mundo tem, talvez uns tenham isso mais aparente do que outros, mas deficiências sempre irão acontecer. E eu me enquadro nesse perfil: tenho minhas deficiências, talvez não seja tão aparentes ou físicas, mas elas existem.



CT: Como você avalia os seus desafios diários com seus pacientes?

CR: Eu procuro não estabelecer uma relação muito direta com a questão da avaliação porque eu acho muito rígido. Pode chegar aqui um paciente que, dentro do parâmetro cientifico, não poderá não fazer algo. E não vou limitar o paciente por conta disso. Darei, pelo menos, o bônus da dúvida para ele. Quero que ele tente. Já tivemos aqui um caso que o paciente chegou aqui sem a menor perspectiva de nada. Mas nós o recebemos, conseguimos fazer uma troca muito boa e esse paciente conseguiu nadar. A própria mãe relata que foram 18 anos sem andar. Ele nunca tinha andado na vida. Depois passou a acreditar e ele começou a criar o algo mais. Começou na natação e hoje ele anda! Não anda perfeitamente, mas anda empurrando a cadeira de rodas com a mãe sentada. Acho que reabilitar é um processo muito longo. Reabilitar não se limita apenas a literatura.

CT: Como é sua relação com seus pacientes?

CR: Acredito que aqui nós temos não só pacientes, mas temos amigos, parceiros. Eu os trato como se fossem da minha família. Faço questão também que os meus filhos estejam sempre interagindo com eles, pois é uma forma de aceitar e compreender melhor a diversidade que a vida tem. No dia-a-dia sou mais aluno do que professor. Tenho muito a aprender: disposição, vontade, garra... Um dos trabalhos que faço aqui é pedir ajuda aos empresários, ao governo e aos amigos para realizar sonhos atrás vez do esporte, competindo. Por exemplo, agora no Corso, quisemos arrumar um rei e uma rainha para o caminhão da acessibilidade. Fui lá pedir a roupa do rei e da rainha. Não tenho vergonha de pedir se for pra eles. Se for pela causa eu vou lá e peço mesmo. Venho conseguindo por que acho que a seriedade do nosso trabalho aqui nos tem dado bastante credibilidade.

CT: Quais são as atividades que vocês desenvolvem aqui no Ceir?

CR: Aqui no centro de reabilitação eu supervisiono a reabilitação esportiva, eu e mais três terapeutas. Nós temos as mais diversas atividades dentro do contexto. A natação hoje é o carro chefe do Ceir. As atividades hoje que desenvolvendo são: basquete de cadeira de rodas,  futebol de amputados, natação, hidroginástica, nós tínhamos a dança e o tênis de mesa, mas por pouca demanda nós tivemos que encerrara-las temporariamente, e temos também a capoeira. Na capoeira temos 35 garotos que vão de um a 26 anos, hoje são mais de 500 apresentações. A capoeira talvez seja a nossa atividade que tem mais projeção.

Esse ano a gente tá com o projeto de implantar o futebol para paralisia cerebral (PC) porque nós temos muitos garotos aqui que querem jogar bola e, infelizmente, as escolinhas ainda não estão recebendo esses garotos. Não sei o que acontece hoje dentro da atividade física, se busca muito o lado competitivo. Não quero criticar, mas tenho aqui meninos carentes que precisam estar inseridos também nesse contexto. Isso não está acontecendo lá fora? Não tem problema. Nós trazemos para cá, trabalhamos, mostramos que é possível e divulgamos. Um dos nossos trabalhos também é desmistificar para que eles possam desenvolver essa atividade também. Como desmistificar? Marcando jogos com PCs nas escolinhas. Eu acho que só o fato de eles irem até os jogos já é uma vitória. Não se trata apenas do placar. “Ah, mas perdemos de 50 a 0”. Não tem problema, porque nós estamos dando de 100 a 0 em quem não quis aceitar ele lá.

CT: Quando você resolveu tirar os seus pacientes do Ceir e leva-los para competir?

CR: Tudo começa lá reabilitação esportiva. Fomos vendo que alguns pacientes demonstravam muita habilidade na natação e vimos que tínhamos condições de fazer algo por eles. Então, lançamos as equipes competitivas. Em 2009, levamos uma paciente nossa em uma etapa do circuito norte/nordeste do paraolímpico brasileiro. E, de primeira, já ganhamos duas medalhas de ouro. Foi bom para a paciente que estava competindo, foi bom pra mim que vi que era por ali que tínhamos que andar. Foi aí que começou tudo, virou um vício e não parou mais. Começamos a selecionar dentre os pacientes com mais habilidades, aqueles que tinham interesse pela competição. Nós começamos a trabalhar nesse meio e foi interessante porque o circuito já virou rotina. Eles ganham em torno de oito a quinze medalhas nas competições, dependendo do número de pacientes que consigo levar. Isso, para mim, é muito bom. Para eles e para os outros que estão aqui ao redor vendo, ajuda bastante na autoestima. 

Espero que com a paraolimpíada venha uma melhora para nós. Hoje nós treinamos em uma piscina de 10m. Quando chegamos em competições e relatamos que temos só essa, não acreditam. Uma comissão já esteve aqui e constatou isso. Eles não acreditam que os nossos competidores conseguem competir de igual para igual tendo só essa piscina. Esses meninos são fenomenais! Aí imagina se eles tivessem, que é o meu grande sonho, uma piscina de 25m? Mas é assim mesmo, nós vamos chegando lá dentro das nossas limitações.


CT: O Piauí incentiva o paradesporto?

CR: Hoje o Ceir, dentro de suas limitações, apoia a reabilitação esportiva. Mas chega um momento que não dá, temos que correr atrás do governo realmente. Acabamos tendo um pouco de custo quando entra no campo competitivo e o custo é diferenciado quando, por exemplo, a capoeira precisa de uniforme, corda, de pagar um evento onde trazemos outros capoeiristas para dar mais estrutura; isso tudo tem um custo. Dia 15 de dezembro, nós fizemos uma apresentação de final de ano na Ponte Estaiada. O Dr. Silvio, da BioAnálise, estava passando e se emocionou, como todo mundo que estava presente, e como meu ex-aluno de uma academia que eu trabalhava, ele me parou e perguntou o que ele poderia fazer para ajudar. Então, fizemos uma parceria com o laboratório, que nos apoia no projeto da capoeira. Esse tipo de incentivo tem ajudado bastante não só na reabilitação desses pacientes, mas, principalmente, na questão da autoestima.

Com os meninos do futebol também foi uma luta. Nós conseguimos com a Fundação de Esportes do Piauí (Fundespi), acreditando no paradesporto, um ônibus que nos levou até Natal para disputar o Brasil Open. Ficamos em 4° lugar, perdemos a disputa pelo 3° lugar para o time da casa. Mas foi bom, mostrou que nós estamos no nível certo. As competições no futebol de amputados são sempre muito distantes, no sul do país, e acaba sendo muito caro. O paradesporto é a saída do centro de reabilitação, é a materialização de todo o nosso trabalho lá fora. Só o fato desses garotos chegarem aqui e poderem competir já é uma grande vitória. O resultado vem com o tempo.

CT: O piauiense reconhece as potencialidades dos paratletas do Estado?

CR: Aqui temos um grupo de deficientes praticando capoeira, não é um grupo de capoeira onde um deficiente se insere. As pessoas estão muito acostumadas a comprarem o que é de fora. Se você bota um deficiente físico lá fora jogando capoeira, tem um milhão de curtidas e um milhão de comentários. Mas se você coloca um grupo de 35 capoeiristas daqui, as próprias pessoas daqui acham normal. Isso é muito desmotivante para mim e para eles. A comunidade da capoeira não se envolve nesse trabalho. Hoje tenho um lado profissional bem desenvolvido para não achar que eles devem treinar só comigo. Há garotos que iniciaram comigo e treinam em outros grupos. Se eu ajudei eles de alguma forma, daqui há 60 anos quando lembrarem da capoeira, na história dele vai estar marcada a minha passagem, nem que seja por um dia, um segundo, não tem como negar. Nós estamos sempre querendo mais. No dia que disserem que vão colocar uma pista de atletismo no Ceir, vou colocar eles para correrem aqui; assim vou fazendo outro esporte e outro, e outro.

FOTOS: Gabriel Torres/CT